sábado, 28 de julho de 2018

OS ASSASSINATOS DA ESQUERDA ONDE OS CONTABILIZAMOS?

Onde e como registrar as vidas que se foram pelas mãos ensanguentadas da esquerda subversiva e vil, da qual fizeram parte as multifacetadas e enganosas faces de Dilma, Dirceu, Genuíno, dentre muitos outros que, no presente, assaltaram e afundaram o Brasil gerando a pior crise de sua história?
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( Na Veja, em Reinaldo Azevedo)
O debate sobre a revisão da Lei da Anistia voltará. Ou melhor: já voltou. Até porque existe uma ação no Supremo, sob a relatoria do ministro Luiz Fux. O memorando da CIA revelando que o então presidente Ernesto Geisel deu autorização pessoal para a eliminação extrajudicial de inimigos do regime certamente terá desdobramentos políticos. Vamos ver quais.
De saída, note-se: trata-se de uma barbaridade, para empregar uma palavra a que o próprio Geisel recorreu certa feita ao tratar do assunto? A resposta, obviamente, é “sim”. De resto, o documento não deixa dúvidas sobre o comprometimento oficial do regime com a prática ilegal até para os padrões da ditadura. É evidente que essa história tem de ser devidamente contada. Contar, ou recontar, a história à luz dos fatos não implica, no entanto, a revisão da Lei da Anistia. Mais: não se pode ignorar o contexto em que o poder se comportou como marginal. Não para justificar os crimes do Estado. Mas em benefício da precisão histórica.
questão não é nova neste blog. No dia 12 de janeiro de 2010 — há mais de oito anos, portanto —, publiquei a lista de todas as pessoas que foram assassinadas também pelos terroristas de esquerda. Cheguei a 119. Que fosse apenas uma, pouco importa: sua respectiva morte e seu respectivo nome tinha de estar na lista da Comissão da Verdade, que concluiu seu trabalho em 2014. Por que não estava? Pelo visto, a turma não leva a sério aquela história de que a morte de qualquer homem nos diminui. Os valentes não se sentiram diminuídos nem com mais de mais de 100.
As esquerdas alegavam, até 2014, que o Regime Militar, ao longo de 21 anos, havia matado 424 pessoas — número ampliado, então. para 434. É um total provavelmente inflado. Mortos comprovados pré-2014 eram 293. Os outros constavam como “desaparecidos” e se dava de barato que tivessem sido eliminados por agentes do regime. Havia casos em que a vinculação com a luta política não estava comprovada. Estão na lista os mortos do Araguaia. Que corpos tenham sumido, é evidente, é inaceitável. Que pessoas tenham sido executadas depois de rendidas, idem.
Se querem ler uma justificativa para brutalidade e atos criminosos, não será aqui. Mas é preciso contar a verdade inteira.
E o que não se diz é que o terrorismo de esquerda matou nada menos de 119 pessoas, muitas delas sem nenhuma ligação com a luta política. Quase ninguém sabe disso. Consolidou-se ainda outra brutal inverdade histórica, segundo a qual as ações armadas da esquerda só tiveram início depois do AI-5, de 13 de dezembro de 1968. É como se, antes disso, os esquerdistas tivessem se dedicado apenas à resistência pacífica.
É mentira. Nada menos de 19 pessoas foram mortas pelas esquerdas antes do AI-5. Em muitos casos, aparecem os nomes dos assassinos.
Se vocês forem procurar, muitos homicidas estão na lista dos indenizados do Bolsa Ditadura, beneficiados por sua suposta “luta em favor da democracia”. Ou, então, suas respectivas famílias recebem o benefício, e o terrorista é alçado ao panteão dos heróis. Os casos mais escandalosos são os facinorosos Carlos Marighella e Carlos Lamarca.
Ah, sim: PARA AS VÍTIMAS DA ESQUERDA, NÃO HOUVE INDENIZAÇÃO. Como vocês sabem, elas não têm nem mesmo direito à memória. Foram apagadAs da história pela Comissão da Verdade!
Não! Eu não considero que o terrorismo de estado — comprovadamente praticado durante a ditadura militar — tenha a mesma gravidade do terrorismo dos grupos que tentavam assaltar o poder. Ambos são perversos, mas só o primeiro tem força para corromper as instituições. Sempre que o Estado praticar crimes sob o pretexto de combatê-lo encontrará em mim um opositor. Mas que o princípio de civilidade não sirva, por outro lado, para esconder as práticas criminosas a que as esquerdas recorreram na tentativa de implantar no país uma ditadura comunista.
Abaixo, as vítimas das esquerdas antes da decretação do AI-5.
AS VÍTIMAS DAS ESQUERDAS ANTES DO AI-5
1 – 12/11/64 – Paulo Macena,  vigia – RJ
Explosão de bomba deixada por uma organização comunista nunca identificada, em protesto contra a aprovação da Lei Suplicy, que extinguiu a UNE e a UBES. No Cine Bruni, Flamengo, com seis feridos graves e um morto.
2 – 27/03/65 – Carlos Argemiro Camargo, sargento do Exército – Paraná
Emboscada de um grupo de militantes da Força Armada de Libertação Nacional (FALN), chefiado pelo ex-coronel Jeffersom Cardim de Alencar Osório. Camargo foi morto a tiros. Sua mulher estava grávida de sete meses.
3 – 25/07/66 – Edson Régis de Carvalho, jornalista – PE
Explosão de bomba no Aeroporto Internacional de Guararapes, com 17 feridos e 2 mortos. Ver próximo nome.
4 – 25/07/66 – Nelson Gomes Fernandes, almirante – PE
Morto no mesmo atentado citado no item 3. Além das duas vítimas fatais, ficaram feridas 17 pessoas, entre elas o então coronel do Exército Sylvio Ferreira da Silva. Além de fraturas expostas, teve amputados quatro dedos da mão esquerda. Sebastião Tomaz de Aquino,  guarda civil, teve a perna direita amputada.
5 – 28/09/66 – Raimundo de Carvalho Andrade, cabo da PM, GO
Morto durante uma tentativa de desocupação do Colégio Estadual Campinas, em Goiânia, que havia sido ocupado por estudantes de esquerda. O grupo de soldados convocado para a tarefa era formado por burocratas, cozinheiros etc. Estavam armados com balas de festim. Andrade, que era alfaiate da Polícia Militar, foi morto por uma bala de verdade disparada de dentro da escola.
6 – 24/11/67 – José Gonçalves Conceição (Zé Dico), fazendeiro – SP
Morto por Edmur Péricles de Camargo, integrante da Ala Marighella, durante a invasão da fazenda Bandeirante, em Presidente Epitácio. Zé Dico foi trancado num quarto, torturado e, finalmente, morto com vários tiros. O filho do fazendeiro que tentara socorrer o pai foi baleado por Edmur com dois tiros nas costas.
7 – 15/12/67 – Osíris Motta Marcondes,  bancário – SP
Morto quando tentava impedir um assalto terrorista ao Banco Mercantil, do qual era o gerente.
8 – 10/01/68 – Agostinho Ferreira Lima, Marinha Mercante – Rio Negro/AM
No dia 06/12/67, a lancha da Marinha Mercante “Antônio Alberto” foi atacada por um grupo de nove terroristas, liderados  por Ricardo Alberto Aguado Gomes, “Dr. Ramon”, que, posteriormente, ingressou na Ação Libertadora Nacional (ALN). Neste  ataque, Agostinho Ferreira Lima foi ferido gravemente, vindo a morrer no dia 10/01/68.
9 – 31/05/68 – Ailton de Oliveira,  guarda penitenciário – RJ
O Movimento Armado Revolucionário (MAR) montou uma ação para libertar nove de seus membros que cumpriam pena na Penitenciária Lemos de Brito (RJ) e que, uma vez libertados, deveriam seguir para a região de Conceição de Jacareí, onde o MAR pretendia estabelecer o “embrião do foco guerrilheiro”. No dia 26/05/68, o estagiário Júlio César entregou à funcionária da penitenciária Natersa Passos, num pacote, três revólveres calibre 38. Às 17h30, teve início a fuga. Os terroristas foram surpreendidos pelos guardas penitenciários Ailton de Oliveira e Jorge Félix Barbosa. Foram feridos, e Ailton morreu no dia 31/05/68. Ainda ficou gravemente ferido o funcionário da Light João Dias Pereira, que se encontrava na calçada da penitenciária. O autor dos disparos que atingiram o guarda Ailton foi o terrorista Avelino Brioni Capitani.
10 – 26/06/68 –  Mário Kozel Filho, soldado do Exército – SP
No dia 26/06/68, Kozel atua como sentinela do Quartel General do II Exército. Às 4h30, um tiro é disparado por um outro soldado contra uma camioneta que, desgovernada, tenta penetrar no quartel. Seu motorista saltara dela em movimento, após acelerá-la e direcioná-la para o portão do QG. O soldado Rufino, também sentinela, dispara 6 tiros contra o mesmo veículo, que, finalmente, bate na parede externa do quartel. Kozel sai do seu posto e corre em direção ao carro para ver se havia alguém no seu interior. Havia uma carga com 50 quilos de dinamite, que, segundos depois, explode. O corpo de Kozel é dilacerado. Os soldados João Fernandes, Luiz Roberto Julião e Edson Roberto Rufino ficam muito feridos. É mais um ato terrorista da organização chefiada por Lamarca, a VPR. Participaram do crime os terroristas Diógenes José de Carvalho Oliveira, Waldir Carlos Sarapu, Wilson Egídio Fava, Onofre Pinto, Edmundo Coleen Leite, José Araújo Nóbrega, Oswaldo Antônio dos Santos, Dulce de Souza Maia, Renata Ferraz Guerra Andrade e José Ronaldo Tavares de Lima e Silva. Ah, sim: a família de Lamarca recebeu indenização. De Kozel, quase ninguém mais se lembra.
11 – 27/06/68 – Noel de Oliveira Ramos, civil – RJ
Morto com um tiro no coração em conflito na rua. Estudantes distribuíam, no Largo de São Francisco, panfletos a favor do governo e contra as agitações estudantis conduzidas por militantes comunistas. Gessé Barbosa de Souza, eletricista e militante da VPR, conhecido como “Juliano” ou “Julião”, infiltrado no movimento, tentou impedir a manifestação com uma arma. Os estudantes, em grande maioria, não se intimidaram e tentaram segurar Gessé que fugiu atirando, atingindo mortalmente Noel de Oliveira Ramos e ferindo o engraxate Olavo Siqueira.
12 – 27/06/68 – Nelson de Barros, sargento PM – RJ No dia 21/06/68, conhecida como a “Sexta-Feira Sangrenta”, realizou-se no Rio uma passeata contra o regime militar. Cerca de 10.000 pessoas ergueram barricadas, incendiaram carros, agrediram motoristas, saquearam lojas, atacaram a tiros a embaixada americana e as tropas da Polícia Militar. No fim da noite, pelo menos 10 mortos e centenas de feridos. Entre estes, estava o sargento da PM Nelson de Barros, que morreu no dia 27.
13 – 01/07/68 – Edward Ernest Tito Otto Maximilian Von Westernhagen, major do Exército Alemão – RJ
Morto no Rio, onde fazia o Curso da Escola de Comando e Estado Maior do Exército. Assassinado na rua Engenheiro Duarte, Gávea, por ter sido confundido com o major boliviano Gary Prado, suposto matador de Che Guevara, que também cursava a mesma escola. Autores: Severino Viana Callou, João Lucas Alves e um terceiro não identificado. Todos pertenciam à organização terrorista Colima – Comando de Libertação Nacional.
14 – 07/09/68 – Eduardo Custódio de Souza, soldado da PM – SP
Morto com sete tiros por terroristas de uma organização não identificada quando de sentinela no Deops, em São Paulo.
15 – 20/09/68 – Antônio  Carlos  Jeffery, soldado da PM – SP
Morto a tiros quando de sentinela  no quartel da então Força Pública de São Paulo (atual PM) no Barro Branco. Organização terrorista que praticou o assassinato: Vanguarda Popular Revolucionária. Assassinos: Pedro Lobo de Oliveira, Onofre Pinto, Diógenes José Carvalho de Oliveira, atualmente conhecido como “Diógenes do PT”, ex-auxiliar de Olívio Dutra no Governo do RS.
16 – 12/10/68 – Charles Rodney Chandler, capitão do Exército dos Estados Unidos – SP
Herói na guerra com o Vietnã, veio ao Brasil para fazer o Curso de Sociologia e Política, na Fundação Álvares Penteado, em São Paulo/SP. No início de outubro de 68, um “Tribunal Revolucionário”, composto pelos dirigentes da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), Onofre Pinto (Augusto, Ribeiro, Ari), João Carlos Kfouri Quartin de Morais (Maneco) e Ladislas Dowbor (Jamil), condenou o capitão Chandler à morte, porque ele “seria um agente da CIA”. Os levantamentos da rotina de vida do capitão foram realizados por Dulce de Souza Maia (Judite). Quando retirava seu carro da garagem para seguir para a faculdade, Chandler foi assassinado com 14 tiros de metralhadora e vários tiros de revólver,  na frente da sua mulher, Joan,  e de seus três filhos. O grupo de execução era constituído pelos terroristas Pedro Lobo de Oliveira (Getúlio), Diógenes José de Carvalho Oliveira (Luis, Leonardo, Pedro) e Marco Antônio Bráz de Carvalho (Marquito).
17 – 24/10/68 – Luiz Carlos Augusto, civil – RJ
Morto, com um tiro, durante uma passeata estudantil.
18 – 25/10/68 – Wenceslau Ramalho Leite, civil – RJ
Morto, com quatro tiros de pistola Luger 9 mm durante o roubo de seu carro, na avenida 28 de Setembro, Vila Isabel, RJ. Autores: Murilo Pinto da Silva (Cesar ou Miranda) e Fausto Machado Freire (Ruivo ou Wilson), ambos integrantes da organização terrorista Colima (Comando de Libertação Nacional).
19 – 07/11/68 – Estanislau Ignácio Correia, civil – SP
Morto pelos terroristas Ioshitame Fujimore, Oswaldo Antônio dos Santos e Pedro Lobo Oliveira, todos integrantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), quando roubavam seu automóvel na esquina das ruas Carlos Norberto Souza Aranha e Jaime Fonseca Rodrigues, em São Paulo.


CINISMO OU IDIOTICE?

Cinismo ou idiotice?,  tanto faz! Para esse advogado mercenário profissional certamente fica difícil compreender o contexto de uma relação, ou, no mesmo tom, entender que profissionalismo não pode transcender conceitos.
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Kakay: “Quem já foi casado razoavelmente sabe que não é estupro”
Kakay, o advogado que defende Roberto Caldas — acusado de espancar e violentar sua mulher—, negou que seu cliente tenha cometido estupro e agressões físicas contra Michella Marys Pereira, publica o Globo.
“Ela fala que acordava com ele penetrando. Para mim isso está longe de qualquer definição de estupro (…).
Quem já foi casado razoavelmente sabe que não é estupro. Eu acho que sinceramente é forçar a barra. Eu conheço esse documento. Eu não tenho nem o que dizer porque acho teratológica (absurda) essa análise de estupro.”


O MUNDO FLUI E REFLUI

O assunto que posto  abaixo teria apenas interesse histórico se, também, não enfatizasse como ocorrem  as lutas, expostas ou subterrâneas, em busca do poder em qualquer nível. Nessas lutas, não importam nacionalidades ou etnias, nem tampouco convicções religiosas, pois o mais importante é a dominação. Ontem, assim como ainda hoje, conceitos subjetivos de Humanidade sempre estarão subjugados pelos objetivos de dominar, mesmo que a qualquer custo. 
John Naisbitt no sei lirvo "Paradoxo Global", de 1994, preconiza que, em função dessas inerências e dos interesses comerciais e de poder, poderemos contar com 1000 países em 2050. A previsão da década de 90, vê-se hoje, talvez não se configure, mas serve como dimensão do problema. Por isso é que me parece ver um mundo fluindo e refluindo a partir de interesses e sobre um cenário físico-territorial-sectário-fundamentalista ainda não definido e que poderá trazer enormes impactos para as gerações vindouras.
Boa leitura.


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A verdadeira batalha de Viena
Dag Herbjørnsrud é um historiador de idéias e fundador do SGOKI (Centro de História Global e Comparativa de Idéias) em Oslo. Seu último livro é Global Knowledge: Renaissance for a New Enlightenment , próximo (2016 original em norueguês).
Em 1683, um cerco otomano foi repelido das muralhas de Viena. Mas estava longe de uma luta entre o Islã e a cristandade
Um homem reza na mesquita mais antiga da Polônia, na vila de Kruszyniany, em abril de 1990. A vila foi entregue aos tártaros muçulmanos Lipka pelo rei John III Sobieski da Polônia, em reconhecimento por sua ajuda na defesa da Comunidade Polaco-Lituana. Na Batalha de Viena, em 1683, o coronel sunita Samuel Mirza Krzeczowski salvou a vida de Sobieski durante a luta contra o exército otomano. Foto por Mark Power / Magnum
Quando a bomba explodiu, eu estava em um café nos arredores de Oslo, lendo no meu telefone. Era uma sexta-feira sombria de sexta-feira, 22 de julho de 2011, às 15h25. A notícia estava cheia de notícias de que o quarteirão do governo da Noruega sofrera sérios danos com um carro-bomba de 900 quilos. Oito pessoas foram mortas. Na TV e on-line, os especialistas imediatamente começaram a especular que a Al-Qaeda era a responsável. Na verdade, o perpetrador estava mais perto de casa: um homem norueguês loiro de 32 anos do afluente West End da capital. O terrorista de olhos azuis, Anders Behring Breivik, era um de nós. 
Depois que a bomba explodiu, Breivik sentou-se em seu carro e ouviu o rádio. Quando soube que a explosão não havia destruído o escritório do primeiro-ministro, ele partiu em minha direção - passando a poucos metros de distância do café - vestido como policial. Ele seguiu para Utøya, a ilha em forma de coração onde os membros jovens do Partido Trabalhista Norueguês estavam reunidos para seu acampamento anual de verão. E lá ele embarcou em um tiroteio de uma hora, matando 69 pessoas, 55 delas adolescentes.
A vítima mais jovem de Breivik foi Sharidyn 'Sissi' Meegan Ngahiwi Svebakk-Bøhn, que completou 14 anos cinco dias antes. Ela tinha recentemente começado seu próprio blog, "Purple in Style", em homenagem a sua cor favorita, e planejava ser uma designer de moda internacional. Em 22 de julho, Sharidyn acordou em uma barraca roxa e azul que ela mesma havia colocado. Naquela tarde, ela conheceu "a mãe da nação", a ex-primeira ministra norueguesa Gro Harlem Brundtland. Starstruck e alegre, a garota de 14 anos telefonou para sua mãe, anunciando que agora ela tinha um rival para o maior herói de sua filha. Às 17h29, Breivik colocou duas balas nas costas de Sharidyn.
O que matou Sharidyn? As balas? Eles não puxaram o gatilho. O dedo indicador? Isso não desencadeou a mente do terrorista. Foram as ideias letais de Breivik que acabaram com a vida de 77 pessoas. Sua ideologia justificava a execução daqueles que ele chamava de "traidores", "marxistas culturais" e defensores da "hegemonia multiculturalista" - exemplificada, em sua opinião, pelos filhos pacíficos da ilha Utøya, os futuros políticos do Partido Trabalhista. 
Na época em que Sharidyn se encontrou com Brundland, Breivik enviara por e-mail seu manifesto de 1.500 páginas para mais de 1.000 de seus conhecidos ideológicos. As mortes foram um meio de espalhar a consciência de seu texto. Ao cometer um dos atos criminosos mais hediondos já realizados por um único homem, ele poderia alcançar a fama global que buscava por suas idéias.
Breivik chamou seu manifesto "2083 - Uma Declaração Européia de Independência". Ele ilustrou-o com o croix patée vermelho dos Cavaleiros Templários, uma ordem dos cruzados do século XII. Mas por que um ano tão distante - por que 2083?
O ano de 2083 marcará o 400º aniversário da Batalha de Viena, travada em 12 de setembro de 1683. O Império Otomano, que se estendia das margens do Golfo Pérsico até os dias atuais de Budapeste e Marrocos, colocou Viena em estado de sítio por dois meses. . Em resposta, a Comunidade Polaco-Lituana, então uma das grandes potências do continente, o Sacro Império Romano e a Monarquia de Habsburgo, em Viena, juntaram forças (a primeira para esses rivais) e expulsaram os otomanos. Inspirado pelo que ele havia aprendido sobre esta batalha lendária, Breivik prevê uma expulsão semelhante de muçulmanos: "Em 11 de setembro de 2083", escreveu em seu manifesto, "a terceira onda da Jihad terá sido repelida eo cultural marxista / multiculturalista". hegemonia na Europa Ocidental será quebrado e deitado em ruínas,
No último centenário da Batalha de Viena, em setembro de 1983, o papa João Paulo II chegou à capital austríaca para uma visita de quatro dias. Esta turnê foi, de acordo com o The New York Times, "o ponto alto da celebração da Áustria do 300º aniversário do levantamento do cerco turco de Viena pelos exércitos cristãos da Europa sob o comando do rei Jan III Sobieski da Polônia". Em 12 de setembro, no dia da batalha, João Paulo II reuniu-se com os poloneses em oração, fugindo de sua terra natal comunista, em Kahlenberg - a colina da qual Sobieski iniciou seu ataque contra os otomanos. Uma placa oficial para o "Comando Militar de Viena, o portador da tradição" foi erguida naquele dia, que celebra o "aniversário de 300 anos da defesa de Viena contra os turcos". Outro monumento próximo afirma que, nessa batalha, o rei da Polônia, Sobieski, veio para "resgatar o cristianismo". A história da Batalha de Viena é de um choque titânico de civilizações, da vitória cristã e da derrota muçulmana. Tais descrições ajudaram a moldar a visão de mundo de Breivik, os conspiracionistas da Eurábia (que pensam que a Europa será totalmente islamizada até o final do século), e a extrema-direita européia. A batalha tornou-se uma parte central de sua ideologia como um episódio histórico a ser imitado, uma vez que parece tipificar a luta final entre "nós contra eles". Como declara o lema do influente blog anti-islâmico Gates de Viena: “No cerco de Viena em 1683, o Islã parecia prestes a invadir a Europa cristã. Estamos em uma nova fase de uma guerra muito antiga. Como declara o lema do influente blog anti-islâmico Gates de Viena: “No cerco de Viena em 1683, o Islã parecia prestes a invadir a Europa cristã. Estamos em uma nova fase de uma guerra muito antiga. Como declara o lema do influente blog anti-islâmico Gates de Viena: “No cerco de Viena em 1683, o Islã parecia prestes a invadir a Europa cristã. Estamos em uma nova fase de uma guerra muito antiga.
Se examinarmos a batalha de perto, podemos entendê-la de maneira bastante diferente: como uma batalha baseada na cooperação interétnica. Afinal, John III Sobieski (1629-96), o rei da multilingue e multirreligiosa Comunidade Polaco-Lituana, poderia não ter vencido a batalha se não fosse pela ajuda dos tártaros sunitas de seu país, conhecidos como os tártaros Lipka. . "Tártaro" era o nome comum para os povos semi-nômades de língua turca que viviam em ou ao redor das imensas estepes do continente eurasiano. Após a "Pax Mongolica" de meados do século XIII (também chamada de "Paz Tártara") e a dissolução do império mongol, um distinto grupo de tártaros muçulmanos, fugindo do grande governante turco-mongol Tamerlane, pediu Grão-duque cristão da Lituânia ( Lipkana sua língua) para o asilo em 1397. Duke Vytautas, um herói nacional na história da Lituânia, congratulou-se com eles. Ele garantiu a liberdade religiosa e até isentou-os da tributação. Em troca, os tártaros de Lipka forneceram seu novo país e, posteriormente, a Polônia, com assistência militar, inicialmente contra Tamerlão.
Os tártaros Lipka e sua cavalaria ligeira tornaram-se um fator vital em quase todas as batalhas na história polonesa-lituana: em setembro de 1939, o 1º Esquadrão Tártaro estava entre as últimas unidades do exército polonês a combater a infantaria invasora da Alemanha nazista. Como o presidente polonês Bronisław Komorowski declarou em Gdańsk, em novembro de 2010, após a dedicação do primeiro monumento da Polônia aos tártaros:
Não havia inimigo da Polónia contra quem não sacassem suas armas pelo bem da pátria. Eles lutaram e expulsaram russos, suecos e até mesmo turcos, apesar de sua religião comum - o Islã. Sem eles, a memorável vitória na Batalha de Viena não teria sido possível e, por essa razão, o rei João III Sobieski levou-os ao coração.
Sobieski havia realmente levado os tártaros ao coração algumas décadas antes. Na década de 1650, ele foi enviado em uma missão diplomática a Constantinopla, hoje Istambul, onde aprendeu a língua tártara. Quando a Suécia atacou a capital polonesa em 1656, Sobieski estava no comando de 2.000 homens do regimento da cavalaria tártara da Criméia, que defendia os poloneses. Essa batalha foi parte do "Dilúvio Sueco", no qual os suecos destruíram mais de 100 cidades polonesas e tantas igrejas, descritas como o pior ataque à Polônia antes da Segunda Guerra Mundial.
Lipka Tatars usava raminhos de palha em seus capacetes para evitar ser confundido com tártaros da Criméia do outro lado
Depois que Sobieski se tornou rei da Commonwealth em 1674, ele libertou os tártaros Lipka de toda a tributação, levantou seus pagamentos para se igualar aos dos cossacos e restabeleceu seus antigos privilégios (perdidos durante a Contra-Reforma) incluindo permissão para reconstruir suas mesquitas. Os tártaros também receberam terras da Crown Estate em Podlasia, no leste da Polônia - assim como os distritos de Brest, Kobryn e Grono na atual Bielorrússia - para assegurar que continuariam a servir com distinção no exército da República da Polônia-Lituânia.
Conseqüentemente, quando Sobieski partiu para levantar o cerco de Viena em 1683 (agora no comando dos exércitos do Sacro Império Romano e dos Habsburgos), ele trouxe consigo a cavalaria ligeira dos tártaros muçulmanos, operando sob a liderança do tenente Lipka Tatar. Samuel Murza Krzeczowski. Durante a batalha, onde lutaram ao lado dos mais famosos hussardos alados de Sobieski, os tártaros de Lipka usavam raminhos de palha em seus capacetes para evitar serem confundidos com os tártaros da Crimeia, que lutavam pelos otomanos. Os tártaros de Lipka causaram estragos ao usar sua famosa tática de fingir retirada antes de se voltarem para envolver o inimigo. Depois da batalha, Sobieski escreveu a sua esposa Marysieńka do acampamento de Szenauna: “Nossos tártaros estão se entretendo com os falcões que trouxeram consigo; eles estão guardando os prisioneiros,
Essa lealdade e confiabilidade deveriam ser comprovadas novamente três semanas depois, quando Sobieski e suas tropas perseguiam as forças otomanas em retirada. Eles entraram em confronto na Batalha de Párkány, às margens do rio Danúbio, em 7 de outubro de 1683. Em um ponto do caos, Sobieski foi afastado de seus soldados e correu o risco de ser morto. Ele foi salvo por seu tenente Krzeczowski, de acordo com a tradição, após o que Sobieski promoveu o Lipka Tatar Krzeczowski para coronel, e concedeu-lhe uma propriedade em Kruszyniany, no leste da Polônia de hoje. Sobieski visitou mais tarde Krzeczowski e agradeceu-o no regresso de uma assembleia do Sejm (parlamento) em Grodno. As pessoas na cidade ainda podem apontar as velhas limeiras sob as quais os dois se encontraram e conversaram.
Não só um soldado muçulmano salvou a vida do "libertador da Europa", como também não há um governante tão reverenciado entre os tártaros muçulmanos quanto João III Sobieski. Por suas ações, ele garantiu a construção de várias mesquitas na região, ainda hoje. Sobieski é também o rei europeu que pode ser creditado como assegurando "o único exemplo de uma comunidade muçulmana duradoura em um país europeu não islâmico ... Uma comunidade que ao longo dos tempos desfrutou dos mesmos direitos e privilégios até hoje", como o historiador Boguslaw. R Zagórski apontou.
Ooutro lado da Batalha de Viena também era multi-religioso. Os otomanos, liderados pelo sultão sunita muçulmano Mehmed IV (1642-93), foram aliados do rei católico romano, Luís XIV (1638-1715). Os otomanos e os franceses concordaram com uma aliança formal no início da década de 1530, que permaneceu intacta até que Napoleão invadiu o Egito brevemente, um quarto de milênio depois. A aliança franco-otomana é o acordo de paz mais duradouro da história da França.
Luís XIV era católico romano, assim como os governantes do Império Habsburgo em Viena. Isso, no entanto, não os tornou aliados naturais, pois Luís XIV desejava ser o monarca cristão mais poderoso da Europa. Ele usou a Batalha de Viena para aumentar sua posição. Quando os otomanos se aproximaram de Viena, a França ligou as forças dos Habsburgos enviando tropas para sua frente ocidental. Não admira que os inimigos do Rei Sol o tenham apelidado de "O Turco Mais Cristão".
Já em 1679, Luís XIV tentara em vão persuadir os otomanos a apoiar a rebelião magiar contra o Império Habsburgo, em Viena. A figura que desencadeou a revolta foi o protestante luterano e aristocrata Emeric Thököly (1657-1705). Opondo-se à supressão da contrarreforma dos protestantes pelos Habsburgos católicos, Thököly recebeu apoio do Rei Sol para iniciar a guerra contra Viena em 1678, com base na Rebelião Magiar e nas revoltas camponesas kuruc do início da década de 1670.
Para promover sua causa, o luterano Thököly aliou-se ao sultão Mehmed IV em Constantinopla e, em novembro de 1682, foi nomeado rei da Hungria Superior (hoje, principalmente Eslováquia). Isso se tornou um estado vassalo sob os otomanos - pagando tributo ao sultão para receber a liberdade religiosa para os protestantes que os estados papais não concederiam. Thököly e seus soldados estavam na Batalha de Viena lutando pelos otomanos ao lado dos outros estados vassalos otomano-cristãos, Valáquia e Moldávia - ambas monarquias ortodoxas orientais na atual Romênia. Embora Thököly e seus protestantes estivessem do lado perdedor, o sultão lhe deu o título de conde e várias propriedades em Galata, na Turquia de hoje, onde se estabeleceu com sua esposa.
Os países protestantes teriam visto de bom grado o Sacro Império Romano cair para os otomanos
Thököly era apenas um dos vários líderes cristãos que buscavam apoio do sultão em Constantinopla. Outro é o cossaco Petro Doroshenko (1627-98), que liderou o Hetmanato cossaco, um estado na Ucrânia central, e lutou contra o polonês na década de 1660 com a ajuda dos tártaros da Criméia. Em março de 1669, o Conselho Cossaco de Kursun aprovou a proposta de Doroshenko de fazer uma aliança com os otomanos para resistir às incursões polonesas e russas.
Na Europa ocidental, os novos estados protestantes, formados após a Reforma do início do século XVI, muitas vezes tinham grandes esperanças de ajuda dos muçulmanos otomanos contra o papa e os poderes católicos da Espanha e de Viena. Tomemos como exemplo o holandês Guilherme I de Orange (1533-84), o "Pai da Pátria", que em 1566 enviou um enviado ao sultão Suleiman, o Magnífico, solicitando ajuda em sua luta contra a supressão espanhola de súditos protestantes. E em 1574, o sultão Murad III (1546-95) enviou uma carta aos protestantes da Holanda e da Espanha declarando que luteranos e calvinistas tinham mais em comum com o islamismo sunita do que com o catolicismo: 'Como você, de sua parte, não adora ídolos , você baniu os ídolos e retratos e “sinos” das igrejas, e declarou sua fé afirmando que Deus Todo-Poderoso é um e Santo Jesus é Seu Profeta… '
Tal histórico pode explicar por que o rei polonês John III Sobieski e seus tártaros muçulmanos foram os únicos a resgatar os Habsburgos em Viena. Os países protestantes teriam prazer em ver o Sacro Império Romano cair para os otomanos. Eles lutaram contra os Habsburgos e o Papa, e em sua maior parte aliados às forças otomanas, durante a Guerra dos 30 Anos (1618-48) - a mais sangrenta das chamadas "guerras civis cristãs" depois da Reforma.
Então a Batalha de Viena não foi uma guerra entre a cruz e o crescente. Não foi um choque de civilizações, uma poderosa vitória cristã sobre o Islã. Em vez disso, os tártaros muçulmanos sunitas eram vitais para ajudar o rei católico polonês de um lado - assim como os húngaros luteranos eram aliados do sultão muçulmano sunita do outro. O ano de 1683, no final, foi apenas mais um ano de batalhas pelo poder e influência entre os grandes estados da Europa. Lealdades cruzaram todas as fronteiras de fé e etnia. Sobieski e seus aliados nunca "salvaram a Europa", nem o cristianismo, apesar das alegações de placas, livros didáticos e enciclopédias. Em vez disso, o governante da Comunidade Polaco-Lituana era o principal salvador da vida e cultura muçulmana no norte da Europa. A Batalha de Viena foi um drama multicultural; um exemplo das reviravoltas complexas e paradoxais da história européia. Nunca houve algo como "os exércitos cristãos unidos da Europa".
Nem a Batalha de Viena importou tanto na história européia quanto alguns gostariam de acreditar. Depois de 1683, os otomanos governaram os Bálcãs por mais dois séculos; a maioria dos gregos, búlgaros, romenos, sérvios e croatas permaneceu tão cristã como sempre e hoje é mais cristã que os austríacos. Quanto aos otomanos muçulmanos sunitas, seu principal inimigo do século XVI ao século XVIII não era um estado europeu, mas o vizinho império safávida da Pérsia e sua nova escola Twelver do islamismo xiita.
O uso indevido da história por Breivik e sua laia é baseado no ódio, não na lógica, no argumento ou na razão. Devemos nos perguntar de onde vem esse ódio. Afinal, grande parte do manifesto de 2083 é baseado em artigos da Wikipedia e no que o terrorista aprendeu sobre a história européia. E as ideias sobre as quais Breivik escreveu são agora muito mais difundidas na Europa do que há sete anos. Em tal mundo, podemos também refletir sobre o poema "Sobre a Violência", do autor alemão Bertolt Brecht, escrito após os levantes de 1933:
O fluxo vertiginoso é chamado de violento.
Mas o leito do rio que o envolve não é
violentado por ninguém.
Na maioria das vezes, as ideias são maravilhosas. São por isso que estamos todos aqui. Mas algumas vezes, nossas ideias se tornam letais. São por isso que Sharidyn não está mais entre nós.

AS IMPOSIÇÕES QUE NÃO PERCEBEMOS

O Instituto de Estudos Empresariais, de Porto Alegre, promove regularmente o Fórum da Liberdade. Não o "foro de são paulo", o FÓRUM DA LIBERDADE! Sempre há temas interessantes e polêmicos, assim como também sempre há concordâncias plenas e discordâncias plenas. Agora, o tema que me permito indicar no vídeo abaixo é objetivo e irreplicável. Os dados que o palestrante transmite são assombrosos e demonstram quão certos estavam Aldous Huxley, com o seu "Admirável Mundo Novo" e George Orwell, com o seu "1984", ambos os livros gerados  há quase 90 anos, visionários de um mundo um pouco utópico, outro tanto distópico, mas cuja realidade faz o entorno de nossas vidas.
A palestra, além do conteúdo conceitual elevado, contém informações apavorantes que demonstram o quanto somos dominados por imposições que não percebemos ocorrerem por que o são de forma alucinada, tanto na velocidade dos seus surgimentos, quanto na quantidade com que são emitidas por todos os níveis das administrações da nossa "república democrática", se é que podemos denominá-la desta forma.
Por isso, recomendo assistir à toda a apresentação.


ANDAMOS ALEGREMENTE PARA O MATADOURO DA NOSSA INTIMIDADE

Fazemos o quê todos fazem, assim como agimos como todos agem. Os nossos olhos fechados e os sentidos dominados pela massificação e pelo consumo insano, podem nos levar a erros. É sobre isso que o artigo abaixo tenta discorrer. Muito interessante, portanto!


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Orwell sabia: compramos de bom grado as telas que são usadas contra nós
Henry Cowles  é professor assistente de história na Universidade de Michigan. Atualmente, ele está finalizando um livro sobre o método científico e iniciando outro sobre o hábito.

As vendas do romance utópico de George Orwell, 1984 (1949), aumentaram duas vezes recentemente, ambas as vezes em resposta a eventos políticos. No início de 2017, a idéia de "fatos alternativos" evocava Winston Smith, o protagonista do livro e, como funcionário do Ministério da Verdade, alternador profissional de fatos. E em 2013, Edward Snowden, denunciante da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, comparou explicitamente a vigilância do governo ao que Orwell imaginou: “Os tipos de coleção no livro - microfones e câmeras de vídeo, TVs que nos observam - não são nada comparados com o que temos disponível hoje.'
Snowden estava certo. Relendo 1984 em 2018, ficamos impressionados com as "TVs que nos observam", que Orwell chamou de teletelas. A tela é um dos primeiros objetos que encontramos: "O instrumento (a tela, como era chamado) podia ser diminuído, mas não havia como desligá-lo completamente". É onipresente, em todas as salas privadas e espaços públicos, até o final do livro, quando "ainda está despejando sua história de prisioneiros, despojos e abates", mesmo depois de Smith ter se resignado ao seu governo.
O que é mais impressionante sobre a onipresença da teletela é o quão certo e errado Orwell estava sobre o nosso presente tecnológico. As telas não são apenas uma parte da vida hoje: elas são nossas vidas. Nós interagimos digitalmente com tanta freqüência e profundidade que é difícil para muitos de nós imaginar (ou lembrar) como era a vida. E agora, toda essa interação é registrada. Snowden não foi o primeiro a apontar até onde os smartphones e as mídias sociais são a partir do que Orwell imaginou. Ele não poderia saber o quão ansiosos estaríamos por encolher nossos aparelhos e carregá-los conosco aonde quer que fôssemos, ou quão prontamente assinaríamos os dados que produzimos para empresas que alimentam nossa necessidade de nos conectar. Estamos ao mesmo tempo rodeados de telescópios e tão longe deles que Orwell não poderia ter visto o nosso mundo chegando.
Ou ele poderia? Orwell nos dá algumas pistas sobre de onde vieram as telas, pistas que apontam para uma origem surpreendente do estado totalitário descrito por 1984 . Levá-los a sério significa olhar para o mundo corporativo, em vez de para os nossos governos atuais, como a fonte provável da morte da liberdade. Se Orwell estava certo, a escolha do consumidor - na verdade, a ideologia da escolha em si - pode ser como a erosão da escolha realmente começa.
A primeira pista vem na forma de uma ausência tecnológica. Pela primeira vez, Winston se encontra em uma sala sem teletela:
"Não há teletela!"  ele não pôde deixar de murmurar.
"Ah", disse o velho, "nunca tive uma dessas coisas. Muito caro. E nunca pareceu sentir necessidade disso, de alguma forma.
Embora aprendamos a aceitar as afirmações do velho com um grão de sal, parece que - em algum momento, para algumas pessoas - a propriedade de uma tela telescópica era uma questão de escolha.
A segunda sugestão é lançada em um livro dentro do livro: uma história proibida da ascensão do "Partido", de autoria de um de seus primeiros arquitetos, que desde então se tornou "o Inimigo do Povo". O livro credita a tecnologia à destruição da privacidade, e aqui vislumbramos o mundo em que vivemos: 'Com o desenvolvimento da televisão e o avanço técnico que possibilitou receber e transmitir simultaneamente no mesmo instrumento, o privado a vida chegou ao fim.
O que a história obscura da tela nos diz sobre a maneira como vivemos agora? As pistas sobre a relutância de um homem idoso e o poder da televisão sugerem que o excesso totalitário pode não começar no topo - pelo menos não no sentido que imaginamos frequentemente. O acesso irrestrito à nossa vida interior começa como uma escolha, uma decisão de se inscrever para um produto porque "sentimos a necessidade disso". Quando agir de acordo com nossos desejos no mercado significa assinar nossos dados para entidades corporativas, a erosão da escolha revela-se a conseqüência da escolha - ou, pelo menos, a consequência de celebrar a escolha.
Dois historiadores recentemente apontaram para essa conclusão - de maneiras bem diferentes.
Uma delas, Sarah Igo, da Universidade Vanderbilt, no Tennessee, argumentou que as demandas dos americanos por privacidade parecem ter andado de mãos dadas com suas decisões de sacrificá-la ao longo do século XX. Os cidadãos simultaneamente protegem e transmitem suas vidas privadas por meio de pesquisas e mídias sociais, chegando gradualmente a aceitar que a vida moderna significa contribuir para - e colher as recompensas - os dados dos quais todos nós dependemos cada vez mais. Embora algumas dessas atividades tenham sido “escolhidas” mais prontamente do que outras, Igo mostra como a própria escolha chegou a parecer irrelevante quando se tratava de dados pessoais.
Enquanto isso, a historiadora Sophia Rosenfeld, da Universidade da Pensilvânia, argumentou que a própria liberdade foi reduzida à escolha, especificamente a escolha entre um conjunto limitado de opções, e que sua redução marcou uma revolução na política e no pensamento. À medida que as opções são avaliadas para aqueles que podemos encontrar on-line - uma seleção conduzida sob a bandeira da "escolha" - começamos a sentir as consequências dessa mudança em nossas próprias vidas.
Pode-se facilmente imaginar a escolha de comprar um telescópio - na verdade, muitos de nós já temos. E pode-se imaginar também precisar de um, ou achá-los tão convenientes que eles se sintam obrigatórios. O grande passo é quando a conveniência se torna compulsória: quando não podemos arquivar nossos impostos, concluímos o censo ou contestamos uma reivindicação sem uma tela.
Como um homem sábio disse certa vez: "Quem disse que" o cliente tem sempre razão? "O vendedor - nunca ninguém, a não ser o vendedor." Quando as empresas alimentam nosso impulso de conectar e colher os dados resultantes, não nos surpreendemos. Quando as mesmas empresas são tratadas como serviços públicos, trabalhando lado a lado com os governos para nos conectar - é quando deveríamos nos surpreender, ou pelo menos desconfiar. Até agora, a escolha de usar o Gmail ou o Facebook pareceu exatamente isso: uma escolha. Mas o ponto em que a escolha se torna compulsiva pode ser difícil de detectar.
Quando você precisa ter um cartão de crédito para comprar um café ou usar um aplicativo para registrar uma reclamação, dificilmente notamos. Mas quando um smartphone é essencial para os trabalhadores migrantes, ou quando o preenchimento do censo exige que você esteja on-line, entramos em um canto. Com o Censo dos EUA pronto para entrar em operação em 2020 e as perguntas sobre como todos esses dados serão coletados, armazenados e analisados ​​ainda no ar, poderemos estar mais perto desse canto do que pensávamos.

ESCRITO PARA OS LEITORES DO FUTURO

Monumental, corajoso e preciso, o texto que indico abaixo. Os futuros prescrutadores da História Brasileira, especialmente sobre este perío...